Bovespa perdeu pelo 5º dia e dólar voltou a valer mais de R$ 2
A quarta-feira foi mais um dia negativo para os mercados brasileiros. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) caiu pela quinta sessão consecutiva, marcando a maior sequência de baixa desde novembro do ano passado. Já o dólar reafirmou tendência de alta e fechou acima dos R$ 2. Os juros ensaiaram alta, mas o pessimismo externo e queda na taxa de retornos dos papéis americanos puxaram os vencimentos para baixo no final do pregão. Sem indicadores de peso na agenda do dia, a tomada de posições amplificou a instabilidade externa e a contínua debilidade no preço das commodities. O barril de WTI, por exemplo, caiu pelo sexto dia, voltando a ser negociado na casa dos US$ 60 o barril, preço não registrado desde 19 de maio.
Em Wall Street, o dia ainda encerrou de forma positiva tanto para o Dow Jones, que ganhou 0,18%, quanto para o Nasdaq, que subiu 0,06%. Já o S & P 500 cedeu 0,17%.
As compras no final do pregão foram estimuladas pela expectativa com os resultados da Alcoa, que, mesmo negativos, se confirmaram melhores do que o esperado. A fabricante de alumínio amargou prejuízo líquido de US$ 454 milhões no segundo trimestre. Também após o fechamento dos negócios, as atenções se voltaram para um anúncio do Tesouro americano, que finalmente vai colocar para funcionar as parcerias público-privadas desenhadas para tirar ativos tóxicos das carteiras dos bancos. Mas o valor destinado ao projeto é bastante inferior ao estimado quando a ideia foi anunciada no começo ano. O plano anunciado, ontem, prevê US$ 30 bilhões do Tesouro e outros US$ 10 bilhões de nove instituições privadas. A expectativa inicial girava em torno de US$ 1 trilhão para o saneamento dos balanços. De volta ao âmbito doméstico, a melhora de humor em Wall Street estimulou algumas compras na Bovespa, mas não teve força suficiente para puxar o Ibovespa para o território positivo. Ao final do pregão, índice apontava baixa de 0,56%, aos 49.177 pontos, e giro financeiro de R$ 5,03 bilhões. Na mínima, o indicador bateu nos 48.455 pontos. O diretor da Wagner Investimentos Ltda., Milton Wagner, avisou da possibilidade de o Ibovespa aprofundar esse movimento de baixa. O especialista fez o alerta tendo como base um modelo de análise quantitativa que avalia as posições concentradas dos grandes agentes de mercado em mais de 50 ativos ao redor do mundo.
Segundo Wagner, esse modelo está apontando para uma reversão de posicionamento em uma série de ativos, como bolsas, moedas, commodities e taxas de juros. " O modelo mostra que todos os grandes agentes estão mudando de lado " , diz.
O diretor observa que, quando o preço de um ativo rompe a concentração de mercado, os agentes automaticamente reavaliam suas posições, vendendo os ativos no mercado à vista ou futuro.
Wagner explica que esse tipo de modelo é fiel aos acontecimentos porque todos os agentes recebem as mesmas informações praticamente ao mesmo tempo e suas apostas são bastante parecidas.
" Hoje temos muitos ´players´ profissionais com posições em um mesmo ativo. Então, quando arrebenta para um, arrebenta para todos. A tendência fica mais definida quanto mais concentrado o mercado " , afirma. No caso da Bovespa, o modelo aponta que as vendas aconteceriam até a casa dos 44 mil pontos. Já no câmbio, o dólar tenderia a buscar os R$ 2,11. Com outro enfoque, o operador-sênior da TOV Corretora, Décio Pecequilo, explicou que, depois dos ganhos expressivos do primeiro semestre, a Bovespa passa por um período de acomodação. " Temos que lembrar que o Ibovespa subiu 37% no semestre, e, em dólares, a alta foi ainda maior, 64%. " Ele notou que o mês de julho marca o período de férias no hemisfério norte, tirando de ação boa parte dos grandes investidores externos. Mesmo com o quadro atual de incerteza, Pecequilo apontou que segue otimista com o mercado brasileiro. " Nosso mercado ainda pode evoluir. Assim que esse momento de indefinição for superado, podemos pensar nos 60 mil pontos no final no ano. " O que dá sustentação ao bom humor do operador é que o Brasil continua atraindo investimentos, apresenta uma economia diversificada, tem um mercado interno crescente, emprego estável e renda pessoal com leve avanço. " Isso mostra que a tendência de médio e longo prazo favorece o mercado brasileiro. " No câmbio, o dólar comercial registrou o quinto pregão seguido de alta contra o real e fechou negociado acima dos R$ 2,00 pela primeira vez desde 22 de junho. Na semana, a divisa já ganhou 3,23%.
Deixando de lado uma breve tentativa de baixa no período da manhã, o dólar comercial subiu 1,15%, encerrando a R$ 2,014 na compra e R$ 2,016 na venda. Mesmo com a pressão compradora prevalecendo, o Banco Central (BC) continuou atuando no mercado à vista, comprando moeda a R$ 2,0173 por volta das 15h30.
Na roda de " pronto " da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM & F), a divisa marcou alta de 0,85%, para R$ 2,009. O giro financeiro na bolsa somou US$ 261 milhões, 68% maior que o registrado um dia antes. No interbancário, o volume foi de US$ 1,6 bilhão, alta de 60% sobre o pregão anterior.
Segundo o diretor-executivo da NGO Corretora de Câmbio, Sidnei Moura Nehme, o movimento de valorização da moeda americana não causa surpresa, já que o fluxo de recursos em direção ao país está negativo.
" Aquele fluxo generoso para o Brasil retrocedeu em função da perda de fôlego da bolsa e da menor atratividade dos ativos de renda fixa " , explica o especialista.
Além disso, o BC continua persistente em suas atuações no mercado à vista, comprando mais moeda do que o fluxo.
Dados apresentados pela própria autoridade monetária contribuem para essa avaliação. Nos três primeiros dias úteis de julho, o fluxo cambial foi negativo em US$ 672 milhões. Enquanto as atuações do BC no mercado enxugaram outros US$ 133 milhões. Em todo mês de junho, o fluxo cambial foi positivo em R$ 1,07 bilhão, reflexo da entrada de US$ 2,3 bilhões nos últimos dois dias do mês. Mas boa parte desse dinheiro teve como destino a oferta de ações e a posterior negociação dos ativos da Visanet na Bovespa.
O BC também mostrou que suas intervenções no mercado à vista somaram US$ 3,247 bilhões no mês passado. Portanto, o fluxo líquido no mercado interno foi negativo em US$ 2,17 bilhões em junho.
Ainda de acordo com BC, os bancos mudaram sua posição no mercado de câmbio, fechando o mês vendidos em US$ 524 milhões. Desde julho de 2007, as instituições financeiras não apresentavam posição vendida.
Segundo Nehme, com essa mudança de posição dos bancos, o Banco Central deve mudar de estratégia e restringir suas atuações à retirada do excesso de dólares, para evitar movimentos especulativos no intradia. " O BC tem que atuar de forma pontual e não se fazer previsível " , afirma. " No entanto, o economista não acredita que o dólar deve subir muito acima dos R$ 2,00. Nehme comenta que os mesmos dados apresentados pelo Banco Central mostram um descasamento entre o saldo comercial e o câmbio contratado. Isso indica que tem moeda proveniente das exportações represada fora do país pelos agentes que aguardam uma taxa mais atrativa. " Tem um hiato entre essas contas e o dinheiro deve entrar no país, agora, em busca de uma taxa melhor " , afirma.
Os contratos de juros futuros começaram apontando para cima, depois que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) superou o esperado em junho. Mas o pessimismo quanto à recuperação da economia global e a queda na taxa de retorno dos títulos americanos ganharam importância no período da tarde, estimulando a devolução dos prêmios de risco.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou que a inflação oficial ficou em 0,36% no mês passado, acima do consenso de 0,29% a 0,31%, mas abaixo do índice de 0,47% registrado em maio. Na avaliação da CM Capital Markets, embora acima das expectativas, o índice continua confirmando o cenário benigno para a inflação no país. A alta foi muito concentrada em alimentos, mais especificamente no leite pasteurizado, que respondeu por 0,14 ponto do IPCA.
O ponto positivo veio no setor de serviços, que permanecia em níveis desconfortáveis devido ao aumento da renda do trabalhador desde o ano passado e, agora, confirmou tendência de desaceleração, variando 0,38% em junho frente a 0,59% no mês anterior. A variação acima do previsto no IPCA de junho não altera a visão da CM Capital Markets quanto à decisão do Comitê de Política Monetária (Copom). " Diante do cenário prospectivo favorável para a inflação tanto no âmbito do consumidor quanto no atacado, mantemos o nosso call de um corte de 0,5 ponto percentual na próxima reunião do Copom, com os juros permanecendo em 8,75% até meados de 2010 " , indicou a corretora em comunicado. Ao final do pregão, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2011, mais líquido da sessão, apontava baixa de 0,04 ponto, para 9,78%, depois de subir a 9,86%. O vencimento para janeiro de 2012 cedeu 0,01 ponto, a 10,91%. Destoando, janeiro de 2013 projetava 11,60%, valorização de 0,01 ponto. Mas, na máxima, o contrato testou 11,71%.
Entre os contratos curtos, janeiro de 2010 recuou 0,03 ponto, a 8,69%. Agosto de 2009 caiu 0,02 ponto, a 8,94%. Setembro de 2009 diminuiu 0,01 ponto, para 8,79%. E outubro de 2009 caiu 0,02 ponto, a 8,76%.
Até as 16h15, antes do ajuste final de posições, foram negociados 393.080 contratos, equivalentes a R$ 35,41 bilhões (US$ 18,02 bilhões), pouco mais do que o observado um dia antes. O vencimento para janeiro de 2011 foi o mais negociado, com 159.110 contratos, equivalentes a R$ 13,84 bilhões (US$ 7,04 bilhões).
(Eduardo Campos | Valor Online)
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